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domingo, 29 de maio de 2011

O que acontece agora?

Nas areias grossas, sujas de musgo

Uma praia escura além dum Bojador

Aonde eu vou para pensar...

Ontem eu caminhava e ouvi:

Passo após passo, eu ainda ouvia

Goles e goles de areia, eu ainda ouvia

Era o mar deglutindo algum bicho!

Arrepiei-me, o mar ganhou.



A lamparina continuava acesa,

A lenha no fogão vermelho,

A sopa dentro da panela quente,

Mas o guarda-roupa você levou

Nenhum trapo de nada ficou

Eu notei as portas abertas,

Eu senti o fogo que estalava

Eu vi o guarda-roupa vazio

Eu ouvi o silêncio de dentro de mim



Quis voltar à praia, mas sabia que... não!

Sentei e começaram os meus pesares

O mais triste do mundo era só eu!

Pois o bicho que o mar matou,

Não foram as roupas que você levou

Mas só o amor que você me deu.

terça-feira, 8 de março de 2011

Eu e ele

D epois dos sacrifícios de um mundo,

Os dois meninos nasceram juntos

Para seguirem, separados, seus caminhos

Para serem o mais diferentes possível

E, assim, foram mundo afora

Lá do Velho Continente à América

Gritando para crescer, florescer

Älmas que ocupavam muito espaço

Nas embarcações, nas casas, neles mesmos

Gemiam pela vida, sempre vagando...

Estranhos irmãos, que por caminhos estreitos

Reencontrara-se. Foram viver.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sem motivo

Mesmo com toda beleza
Não lhe quero dizer
Uma cançãozinha de tristeza,
Da noite ou do entardecer.

Eu quero escrever
Trova daquele prazer
E que fale deste amor,
De deleite e também de dor.

Da chama que havia sido
Que, em demasia,
Transformara o acontecido.

Dor que queima e consome,
Sem motivo extasia
E, assim, rápida, some.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Indiferença à mesa do chá das cinco

No mármore todo pintado, moram
Xícaras brancas e flores de cristal.
Olhos que se cruzam, mas não ousam
Falar as palavras causadoras de tal mal

– a palavra que ninguém quer falar –

Uma colher prateada que gira,
O pôr-do-sol que nas tardes frias
Não esquenta a mão que agora vira
Todo o mundo negro e quente do café...

– a mão que ninguém quer segurar –

E a noite chega, as mãos pousam
O casaco macio em que os ombros repousam
Sem palavras. Um final cujo grande mal
Está nos olhos do não-dito de uma tarde invernal.

– a situação que ninguém quer explicar –

sábado, 10 de julho de 2010

Lençóis de ar

Eu esperei na cama vazia,
O aconchego arrefeceu-se
Conforme ela embora ia...
O corpo endureceu-se

O calor dos seus braços
Foi só um irreal e triste sonho
Do perfume aos finos passos
Que levaram meu rosto risonho

Orgulhoso demais em assumir
Para outros que nem desconfiam
Muito autocentrados para presumir
As lágrimas que esses olhos desfiam

Um reflexo opaco no espelho
De olhos que sentem falta
Das mãos perdidas, sem conselho
Nem rumo, nem norte, nem pauta...

Hora do chá tedioso

Domingo à noite,
Já é tarde, tarde e meia...
Vou dormir pra acordar
Mas antes café, sempre café...

Só um pouquinho,
Falo a mim, paro, ponho
Açúcar me deixa irrequieto
Eu tomo mesmo assim.

Anis, hortelã, camomila,
Pacotinhos coloridos
Rosa, azuis, amarelos...
Combinações de infância.

Tomo depressa a xícara
Alguém quer me pegar
Como bolacha? Ah, sim!

Segunda xícara,
Olhar pela janela
Asfalto úmido,
Árvores úmidas,
Toalhas molhadas

Ainda bem que amanhã é segunda-feira.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O nadador

Pela manhã azul e brumosa
Ele vai ao lago cinzento
Nas mãos, a toalha felpuda
E nela, nossos destinos
Prontos para se encharcar
A distância de um só puxão.

Seu corpo mistura-se à água,
E ambos dançam vertiginosos...
Em meio àquela desolação,
Tem-se o frio e o clac-clac das matas
Mas eles se bastam, pois estão juntos

Ele passa gentilmente pela água
Sentindo-a como o arrepio na pele
Profanando-a como a lenha
Que estala nas fogueiras pagãs
Vindas de ritos ancestrais...

Ela o abriga hospitaleira
E juntos continuam o rito
Dançando até a aurora cortar
Com raios agudos a escuridão
Que envolve o topo das serras
E que encobre a verdade dos nossos sonhos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os outonos daqui

Ele não sai da minha janela
Com seu vento frio e ocaso escuro,
Obscuro e assomado àquela
Tristeza do trabalho duro.

Dias cada vez mais solitários
Céus opalinos, frios... bondosos?
Almas sofridas em relicários
Passados ácidos e dolorosos.

O corpo segue resignado
Da dor outrora lancinante
Lucidez, amor, tudo acabado.

O pôr-do-sol azul-arroxeado
Últimos raios cruciais para este instante
Irresoluto segue um amante assim... apagado.